PEI na prática: como transformar necessidades educacionais em objetivos claros e mensuráveis 

A educação inclusiva não se resume à presença do estudante na sala de aula. Para que a inclusão aconteça de maneira efetiva, é necessário garantir condições reais de participação, aprendizagem e desenvolvimento.

Nesse contexto, o Plano Educacional Individualizado (PEI) assume um papel importante na organização das estratégias pedagógicas destinadas ao estudante que apresenta necessidades específicas.

Entretanto, um dos grandes desafios das escolas não está apenas em elaborar o documento, mas em responder a uma pergunta essencial:

Como transformar as necessidades identificadas no estudante em objetivos educacionais que realmente possam orientar o trabalho do professor?

O artigo Algumas considerações sobre a escrita de objetivos educacionais individualizados chama atenção justamente para essa questão. Os autores defendem a importância da observação sistemática, do registro de comportamentos observáveis e da elaboração de objetivos educacionais claros, mensuráveis e relevantes.


PEI não deve ser apenas um documento burocrático

Um dos riscos do planejamento educacional individualizado é transformá-lo em um documento produzido apenas para cumprir uma exigência institucional.

Quando isso acontece, encontramos objetivos como:

“Melhorar a atenção.”

“Desenvolver a leitura.”

“Melhorar o comportamento.”

“Ser mais independente.”

“Participar melhor das atividades.”

Embora expressem intenções importantes, essas frases apresentam um problema: como saberemos objetivamente se o estudante avançou?

O documento estudado destaca que a falta de formação e suporte técnico pode fazer com que PEI e PAEE se tornem documentos de preenchimento burocrático, em vez de instrumentos efetivos de organização pedagógica.

O planejamento individualizado precisa orientar a prática.

Isso significa que o professor deve conseguir olhar para um objetivo e compreender:

O que ensinar? Como ensinar? Em qual contexto? O que observar? E como identificar se houve progresso?


O diagnóstico não deve ser o centro do PEI

Outro ponto relevante é a mudança de perspectiva proposta para a avaliação educacional.

Conhecer o diagnóstico de um estudante pode contribuir para a compreensão de determinadas características do desenvolvimento, mas ele não informa, sozinho, como aquela criança aprende.

Duas crianças com o mesmo diagnóstico podem apresentar necessidades educacionais completamente diferentes.

Por isso, a elaboração do planejamento deve considerar as potencialidades do estudante, as barreiras que interferem em sua participação e aprendizagem e seu funcionamento no ambiente escolar.

O documento destaca que essa perspectiva desloca o foco de uma análise exclusivamente baseada no diagnóstico para uma compreensão educacional mais ampla, considerando a interação entre estudante, ambiente, propostas pedagógicas e condições de ensino.

Portanto, antes de escrever objetivos, precisamos conhecer o estudante.


Antes do objetivo, vem a observação

Uma boa elaboração do PEI começa pela coleta de informações.

A observação sistemática pode acontecer em diferentes momentos da rotina escolar:

  • entrada e organização dos materiais;
  • atividades de maior e menor preferência;
  • leitura e escrita;
  • matemática e demais componentes curriculares;
  • atividades em grupo;
  • brincadeiras e interações com colegas;
  • transições entre atividades;
  • recreio e lanche;
  • situações nas quais encontra dificuldades;
  • momentos em que precisa solicitar ajuda.

O guia apresentado no artigo propõe exatamente essa ampliação do olhar. Por exemplo, durante atividades de baixa preferência, pode-se observar quais comportamentos aparecem e quais apoios favorecem a permanência na tarefa. Nas interações com colegas, pode-se verificar se o estudante inicia, responde e mantém atividades compartilhadas.

Essa observação permite sair de uma descrição genérica do estudante e compreender seu funcionamento real dentro do ambiente educacional.


Descrever o que aconteceu é diferente de interpretar

Esse é um dos pontos mais importantes para a elaboração de um PEI de qualidade.

Imagine que um estudante tenha dificuldade para retornar à sala depois do recreio.

O professor poderia registrar:

“O aluno fez birra porque não queria entrar.”

Porém, essa descrição contém uma interpretação.

Uma observação objetiva poderia registrar que, após ser chamado para retornar à sala, o estudante correu pelo pátio e permaneceu deitado no chão durante determinado período.

A diferença parece pequena, mas é fundamental.

Quando descrevemos aquilo que efetivamente pode ser observado, conseguimos analisar melhor o contexto, identificar padrões e planejar estratégias.

O artigo apresenta vários exemplos dessa diferença. Em vez de registrar que determinado aluno é “agitado”, por exemplo, é possível descrever quantas vezes ele se levantou e caminhou pela sala durante determinada atividade.

O PEI deve ser construído com dados, e não apenas com impressões.


Como transformar uma necessidade em um objetivo educacional?

Depois de observar e identificar as prioridades, chega o momento de elaborar os objetivos.

Segundo o documento, um objetivo funcional deve deixar claro:

o que o estudante fará + em quais condições + com qual critério de desempenho.

Compare:

Objetivo amplo:
“O estudante irá melhorar sua leitura.”

Agora:

Objetivo observável:
“Diante de uma lista de palavras previamente selecionadas e compatíveis com seu nível de aprendizagem, o estudante realizará a leitura oral de 8 entre 10 palavras corretamente, em três sessões consecutivas.”

No segundo exemplo, conseguimos identificar o comportamento esperado, a condição na qual será avaliado e um critério para acompanhamento.

Isso permite verificar progresso.


A importância dos verbos

A escolha dos verbos também interfere diretamente na qualidade dos objetivos.

Termos como:

“compreender”,
“entender”,
“aprender”,
“melhorar”,
“conscientizar-se”

podem dificultar a mensuração quando aparecem isoladamente.

Como observamos diretamente que alguém “compreendeu”?

Podemos, entretanto, observar ações como:

ler, escrever, apontar, nomear, responder, selecionar, classificar, resolver ou identificar.

O artigo ressalta que verbos relacionados a comportamentos diretamente observáveis permitem registros mais objetivos e aumentam a possibilidade de diferentes profissionais avaliarem o progresso do estudante utilizando critérios semelhantes.


Objetivos SMART no PEI

Uma estratégia apresentada pelos autores é utilizar o modelo SMART como referência para qualificar a escrita dos objetivos.

Nessa adaptação, um objetivo deve procurar ser:

S — Specific: específico
M — Measurable: mensurável
A — Achievable: alcançável
R — Relevant: relevante
T — Time-bound: delimitado no tempo

Isso significa que não basta escrever que o estudante “vai melhorar a matemática”.

Precisamos estabelecer qual habilidade matemática será trabalhada, qual desempenho esperamos, em quais condições e em quanto tempo esse objetivo será reavaliado.

Os autores também fazem uma ressalva importante: o SMART surgiu originalmente no campo da administração e deve ser compreendido, no contexto educacional, como um recurso heurístico para melhorar a escrita dos objetivos, e não como uma tecnologia de ensino empiricamente validada por si mesma.


De objetivos vagos para objetivos observáveis

O artigo apresenta exemplos que demonstram claramente essa diferença.

Em vez de:

“O estudante irá desenvolver habilidades matemáticas.”

podemos estabelecer uma meta relacionada à resolução correta de determinada quantidade de problemas simples de adição.

Em vez de:

“O estudante deverá demonstrar compreensão de textos.”

podemos definir que, após a leitura de um texto curto, ele deverá responder corretamente a perguntas literais relacionadas ao conteúdo.

A mudança fundamental está em transformar uma expectativa genérica em um comportamento que possa ser ensinado, observado e acompanhado.


O PEI também precisa dizer o que ensinar primeiro

Não é possível trabalhar todas as necessidades simultaneamente.

Por isso, elaborar um planejamento individualizado também significa estabelecer prioridades.

O artigo destaca que selecionar os objetivos de ensino é uma decisão pedagógica e ética. Habilidades com pouca relevância para a vida escolar do estudante podem consumir tempo de intervenção sem produzir impactos significativos em sua participação, autonomia ou aprendizagem.

No contexto brasileiro, essa decisão deve considerar diferentes referências.

Entre elas estão as expectativas curriculares da BNCC, aquilo que é esperado para a faixa etária e, principalmente, as informações obtidas pela observação direta do estudante em situações reais de aprendizagem.

O objetivo não deve ser simplesmente “facilitar” o currículo.

Também não deve estabelecer metas tão distantes do repertório atual que se tornem inalcançáveis.

O desafio é construir pontes entre aquilo que o estudante já consegue fazer e aquilo que precisa aprender.


PEI e PAEE são a mesma coisa?

O documento também apresenta uma discussão importante sobre a distinção entre Plano Educacional Individualizado (PEI) e Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE).

Segundo a síntese apresentada pelos autores, o PEI possui caráter mais amplo e colaborativo, orientando o processo de escolarização do estudante nos diferentes contextos escolares.

Já o PAEE apresenta foco específico nas ações, estratégias e recursos relacionados ao Atendimento Educacional Especializado.

Apesar das diferenças, os dois instrumentos precisam estar articulados.

O planejamento individualizado não pode transferir toda a responsabilidade pela inclusão para o professor do AEE.


Inclusão exige trabalho colaborativo

O professor da sala regular possui informações fundamentais porque acompanha o estudante diante das demandas reais do currículo.

O professor do AEE, por sua vez, pode contribuir com conhecimentos relacionados a recursos, adaptações, estratégias individualizadas e acompanhamento do progresso.

A qualidade do planejamento aumenta quando existe troca sistemática de informações e corresponsabilidade.

O artigo aponta que dificuldades como falta de tempo para reuniões, escassez de recursos humanos e problemas de comunicação ainda limitam a colaboração entre profissionais.

Por isso, um PEI de qualidade não deveria ser produzido isoladamente por um único profissional.


O PEI precisa acompanhar o desenvolvimento do estudante

Um objetivo escrito no início do ano não precisa permanecer inalterado até dezembro.

Se o estudante alcançou a meta, novos objetivos podem ser estabelecidos.

Se não apresentou o progresso esperado, precisamos analisar as condições de ensino.

A estratégia foi adequada?

O objetivo estava compatível com seu repertório?

Os recursos necessários foram oferecidos?

O critério estabelecido era realista?

Existem novas barreiras interferindo na aprendizagem?

Planejamento individualizado pressupõe monitoramento, avaliação e revisão.

O documento estudado reforça que o PEI deve permitir acompanhar o desempenho do estudante, verificar seu progresso e modificar estratégias quando os resultados esperados não estão sendo alcançados.


Da burocracia à intencionalidade pedagógica

Talvez a principal reflexão seja esta:

Um bom PEI não é aquele que possui mais páginas. É aquele que ajuda o professor a tomar melhores decisões pedagógicas.

Quando observamos sistematicamente, registramos comportamentos de maneira objetiva, estabelecemos prioridades, escrevemos metas mensuráveis e acompanhamos os resultados, o planejamento deixa de ser apenas documental.

Ele passa a orientar o ensino.

Os próprios autores concluem que observação sistemática, registros de comportamentos observáveis e objetivos claros, mensuráveis e socialmente relevantes podem melhorar a tomada de decisão pedagógica e fortalecer a corresponsabilização entre professores da sala comum e do AEE.

Assim, o PEI deve ser compreendido como um instrumento vivo, construído a partir das necessidades e potencialidades reais do estudante e constantemente atualizado conforme seu desenvolvimento.

Mais do que preencher campos, elaborar um PEI significa responder pedagogicamente a três perguntas fundamentais:

Onde este estudante está?

Onde queremos que ele chegue?

Quais estratégias e apoios serão necessários para ajudá-lo a avançar?

Luana Aguiar


Fonte principal de pesquisa

SARILHO, Cláudio Almeida et al. Algumas considerações sobre a escrita de objetivos educacionais individualizados. Revista Científica Educação e Evidência, Dossiê Especial – Decreto 12.686/2025, 2026.

Referências utilizadas pela fonte e relevantes para este artigo

BAHRY, A. M.; AIMONE, A. M.; SCHREIBMAN, L. (2022). Improving goals written for individuals with autism: Preliminary results on goal quality following a professional development intervention. Behavioral Interventions, 37(4), 756–771.

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DA SILVA, G. L.; CAMARGO, S. P. H. (2021). Revisão integrativa da produção científica nacional sobre o Plano Educacional Individualizado. Revista Educação Especial, 34, 1–23.

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Nota: O artigo utilizado como base é um ensaio teórico, e os próprios autores esclarecem que as orientações e instrumentos apresentados derivam da literatura e de reflexão teórica, não constituindo instrumentos empiricamente validados.