Coprofagia na infância: compreender a função do comportamento é essencial para planejar a intervenção
Coprofagia na infância: compreender a função do comportamento é essencial para planejar a intervenção
A coprofagia é caracterizada pela ingestão de matéria fecal e pode ocorrer em alguns indivíduos com deficiência intelectual e outros transtornos do neurodesenvolvimento. Embora seja um comportamento pouco discutido, merece atenção clínica devido aos riscos associados à saúde e aos impactos que pode provocar na rotina da criança, da família e dos ambientes que ela frequenta.
Entre os riscos descritos na literatura estão alterações gastrointestinais, parasitoses e exposição a agentes patogênicos. Por esse motivo, diante da ocorrência desse comportamento, a avaliação não deve se limitar à tentativa de simplesmente interrompê-lo. É necessário compreender por que ele acontece, em quais situações ocorre e quais consequências podem estar contribuindo para sua manutenção.
O comportamento precisa ser compreendido dentro de sua função
Um dos principais conceitos apresentados por Ing, Roane e Veenstra (2011) é a importância da análise funcional do comportamento.
Na perspectiva da Análise do Comportamento Aplicada (ABA), comportamentos semelhantes podem apresentar funções diferentes para pessoas diferentes. Por isso, observar apenas a forma do comportamento não é suficiente para determinar a intervenção.
Uma avaliação funcional busca compreender aspectos como:
- o que acontece antes do comportamento;
- em quais ambientes ou situações ele ocorre;
- quais consequências acontecem depois;
- se existe relação com atenção de outras pessoas;
- se permite escapar ou interromper determinadas demandas;
- se possibilita acesso a objetos ou atividades;
- ou se o próprio comportamento produz algum tipo de estimulação que contribui para sua manutenção.
No estudo utilizado como base para este artigo, os pesquisadores realizaram uma análise funcional multielementar, baseada nos procedimentos clássicos descritos por Iwata e colaboradores, avaliando diferentes condições experimentais.
O que o estudo investigou?
A pesquisa acompanhou uma menina de seis anos diagnosticada com autismo, encaminhada para atendimento devido à ocorrência de coprofagia e outros comportamentos de preocupação clínica.
Por questões de segurança, os pesquisadores não utilizaram fezes reais durante os procedimentos experimentais. Foram produzidos materiais artificiais que simulavam suas características visuais e de textura, permitindo observar o comportamento em condições controladas sem expor a criança aos mesmos riscos biológicos.
A análise investigou diferentes condições, incluindo demanda, atenção, acesso a itens tangíveis, brincadeira e uma condição na qual não eram programadas consequências sociais para a ocorrência do comportamento.
Um resultado particularmente importante foi a persistência da coprofagia mesmo durante uma série prolongada de sessões sem consequências sociais programadas. Esse padrão levou os pesquisadores a sugerirem que, naquele caso específico, o comportamento era mantido, pelo menos parcialmente, por reforçamento automático.
O que significa reforçamento automático?
No reforçamento automático, a consequência que mantém determinado comportamento não depende necessariamente da ação de outra pessoa.
Isso significa que a própria estimulação produzida pelo comportamento pode exercer uma função reforçadora.
Essa compreensão é muito importante na prática clínica. Quando um comportamento é interpretado somente como "desobediência", "provocação" ou uma tentativa deliberada de chamar atenção, existe o risco de serem adotadas estratégias incompatíveis com sua verdadeira função.
A pergunta clínica, portanto, não deve ser apenas:
"Como fazer esse comportamento parar?"
Também precisamos investigar:
"Qual função esse comportamento está exercendo para essa criança?"
Avaliação de preferência e estímulos concorrentes
Depois da análise funcional, os pesquisadores realizaram uma avaliação de preferência para identificar estímulos que pudessem competir com a ocorrência da coprofagia.
Foram avaliados itens alimentares e não alimentares. O objetivo era identificar alternativas associadas a maior interação ou consumo e, simultaneamente, menores níveis do comportamento investigado.
Alguns alimentos avaliados apresentaram essa característica de competição com a coprofagia.
Esse ponto demonstra outra característica importante da intervenção comportamental: a escolha dos estímulos não deve ser feita apenas com base naquilo que o adulto acredita que a criança gostará. Sempre que possível, avaliações sistemáticas ajudam a identificar quais estímulos realmente apresentam valor para aquele indivíduo.
Reforço não contingente como intervenção
A partir dos resultados encontrados, os pesquisadores avaliaram uma intervenção baseada no acesso não contingente aos estímulos alternativos identificados anteriormente.
Inicialmente, esses itens permaneceram continuamente disponíveis. Posteriormente, o esquema foi ajustado para disponibilização em intervalos de 30 segundos. Os pesquisadores compararam condições de linha de base e intervenção por meio de um delineamento de reversão ABAB.
Os resultados foram expressivos dentro daquele contexto experimental.
Durante a implementação do reforço não contingente, a ocorrência de coprofagia caiu para zero. Quando houve retorno à condição de linha de base, o comportamento reapareceu e voltou a diminuir após a reintrodução da intervenção.
A Figura 1 apresentada pelos pesquisadores também permite visualizar essa mudança entre as condições experimentais, assim como os resultados obtidos durante a avaliação da generalização do tratamento.
A intervenção funcionou em outros ambientes?
Os pesquisadores também buscaram verificar se os resultados poderiam ser observados em ambientes diferentes da sala inicial de atendimento.
Foram utilizadas situações que se aproximavam dos contextos nos quais historicamente o comportamento ocorria, incluindo um banheiro e outro ambiente contendo uma lixeira.
Por isso, o planejamento clínico precisa considerar diferentes contextos da vida da criança.
Um resultado positivo não significa uma receita de tratamento
Esse é provavelmente um dos cuidados mais importantes ao interpretar o estudo.
Os próprios autores apresentam limitações importantes.
A pesquisa envolveu apenas uma participante, com sessões relativamente breves e supervisão rigorosa. Além disso, a generalização para o ambiente doméstico não foi estabelecida e os procedimentos utilizaram fezes artificiais, que não reproduziam todas as características do estímulo natural.
Também existe uma consideração importante relacionada ao uso de alimentos como estímulos concorrentes. Os autores mencionam possíveis efeitos associados ao consumo alimentar frequente e sugerem que futuras pesquisas investiguem alternativas mais saudáveis ou atividades de lazer.
Portanto, o estudo não deve ser interpretado como recomendação para que famílias ofereçam alimentos sempre que a criança apresentar coprofagia.
O que a pesquisa evidencia é algo mais amplo: identificar a função de um comportamento e avaliar sistematicamente estímulos concorrentes pode contribuir para a construção de intervenções individualizadas.
Coprofagia exige um olhar multiprofissional
Comportamentos que envolvem ingestão de substâncias não alimentares ou matéria fecal não devem ser avaliados exclusivamente pela perspectiva comportamental.
A própria literatura apresentada no artigo destaca os riscos à saúde associados à coprofagia.
Dessa forma, diante da ocorrência desse comportamento, é importante que a família procure avaliação profissional. Dependendo das características e necessidades da criança, pode ser necessária articulação entre profissionais da saúde e do desenvolvimento.
A análise funcional pode contribuir para compreender variáveis ambientais relacionadas à manutenção do comportamento, mas não substitui investigação médica ou outras avaliações clínicas quando indicadas.
Da observação à compreensão
Comportamentos desafiadores frequentemente provocam preocupação, medo e desgaste familiar. Entretanto, uma intervenção qualificada começa antes da escolha de qualquer estratégia.
Começa pela investigação.
Precisamos observar antecedentes, consequências, frequência, contextos, possíveis funções, variáveis ambientais e características individuais.
O estudo de Ing, Roane e Veenstra demonstra justamente a importância dessa sequência: avaliar → formular uma hipótese funcional → identificar estímulos relevantes → testar uma intervenção → analisar os resultados → avaliar a generalização.
Mais do que tentar eliminar um comportamento, o objetivo deve ser compreender o que ele comunica ou produz funcionalmente para aquele indivíduo e, a partir dessa compreensão, construir estratégias seguras, éticas e individualizadas.
Luana Aguiar
Fonte principal de estudo
ING, Anna D.; ROANE, Henry S.; VEENSTRA, Rebecca A. Functional Analysis and Treatment of Coprophagia. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 44, n. 1, p. 151–155, 2011. DOI: 10.1901/jaba.2011.44-151.
Referências citadas no estudo
PIAZZA, C. C. et al. Treatment of pica through multiple analyses of its reinforcing functions. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 31, p. 165–189, 1998.
ROANE, H. S.; KELLY, M. L.; FISHER, W. W. Effects of noncontingent access to food on the rate of object mouthing across three settings. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 36, p. 579–582, 2003.
IWATA, B. A. et al. Toward a functional analysis of self-injury. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 27, p. 197–209, 1994.
HAGOPIAN, L. P.; ADELINIS, J. D. Response blocking with and without redirection for the treatment of pica. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 34, p. 527–530, 2001.
PARRY-JONES, B.; PARRY-JONES, W. L. Pica: symptom or eating disorder? A historical assessment. British Journal of Psychiatry, v. 160, p. 341–354, 1992.
Nota: Este conteúdo possui caráter informativo e educacional. A presença de coprofagia ou de outros comportamentos que possam representar risco à saúde requer avaliação profissional individualizada. Os resultados de um estudo de caso não devem ser utilizados isoladamente para definir intervenções para outras crianças.